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Quero repetir essa vontade de ficar sempre que eu precisar partir...
- Thiago Rafael

Tolices.

Bem como um esforço na ultima nota, meu sopro silencioso alcançou-lhe o ouvido num sussurro tímido dizendo-lhe coisas, estejas cujas batidas de meu coração perderam-se no ritmo desenfreado, no intervalo diferindo o certo do errado, inibindo qualquer aparente desejo, procurei-lhe dizer de um carinhoso jeito, que sob o meu leito de sono seu beijo anseio roubar...

- Thiago Rafael

Sol de um passarinho só.

Os primeiros rastros de sol por debaixo da porta já surgiram em meu quarto, lá fora os pardais anunciam o raiar de um novo dia, de seu canto mesmo suavemente trovejante não me permite diferir se são de tristeza ou de alegria, cá fico a me iludir ao pensar que pelo seu bater de asas teimosas trás-lhe a condição de felicidade, talvez sejam apenas os próximos segundos reflexivos de alguém cuja idade vai sendo alcançada conforte as madrugadas se tornam dias e a alegria deixou de ser rotina, entregue a uma certa monotonia tantas vezes prazerosa me guio aos tropeços de encontro ao conforto do lençol onde deito-me só, deste jeito dia após dia vou aceitando a condição de que meu peito deixou de ser tido como lar e que o passarinho que ansiava sua presença em meu ninho bateu asas para outro lugar...

- Thiago Rafael.

Ninho.

Sentado a beira de um caminho que trazia-me nostálgicas lembranças de outrora sorridente, de um tempo em que a gente se via no reflexo da nossa alegria tatuada na transparência das águas claras, houve instantes em que até o rio sorriu para nós, enamorado bem como eu sempre que a ouvia interromper o silêncio com sua voz, leve e suave melodia que provocara a alegria dos canários em plena luz do meio dia, a margem da sombra de uma arvore já quase sem vida, seus galhos secos quando balançados pelo vento mesmo que fraco mas ainda assim era teimoso, quando todos os pássaros dali partiam, mesmo quando a grama não estava verde, ali retornava sozinho na esperança de resgatar nas lembranças as sensações que trazia-me o teu carinho...

- Thiago Rafael.

Sentimento escravizado.

Frente aos segundos que tornei-me escravo da luxuria de nada fazer, cruzei os braços e num gesto amargo encarei o sol numa frustrada tentativa e invocar uma possível coragem, mas de que me valeria se nada quero, nada espero ou me motiva, enamorei os últimos segundos de sol na pele e retornei ao meu abrigo de falhas reflexões, deitado a margem do espelho que reflete a minha honrosa preguiça, inibida de qualquer julgamento, tornei eterno aquele momento deliberando a mim em silêncio as ordens que partiram do meu corpo gritante, gozando da amplitude que mal cabe na minha vontade extensa de esquecer que no amanhã ao nascer do sol quebraria outra vez minha promessa pois não sei viver sem você...

- Thiago Rafael.

Sob um estranho olhar.

Entre as vielas desta chama chamada saudade, em meu peito mal cabe a verdade que me invade, o deslize que falece a minha notória ansiedade, o ofusco brilho no olhar imaturo, o musgoso toque no arrepiar dos pelos mais íntimos, insisto no instinto errôneo que afoga-me em anseios, devaneios que consomem-me o folego bem como quando ligeiro caminho em direção ao leito do teu abraço, o afago que perturba-me os sentidos deixando-me incontáveis vezes aflito por cansado estar de tanto chorar, teimoso bem como sou volto a caminhar sob os trilhos desta distinta e destilada angustia, descendo-me goela abaixo bem como gole caprichado de um ego passado a muito enferrujado, encaro-me perdidas vezes frente ao espelho e o desprezo que me toma ao degustar o que vejo é quase tão asqueroso quanto o sangue que corre em minhas veias, velharias decoram a minha estante de memórias postas a venda, enquanto cá de olhos vendados caminhando na contra-mão da vida esperando que do fundo de teu cansado coração me entendas...

- Thiago Rafael.

Por trás do reflexo.

Se faz necessário usufruir do teu sorriso, abrigo este que em outrora trouxera o conforto de um colo amigo, a suavidade dos dedos ainda enrugados a deslizarem em meu couro cabeludo, refletidos errôneos olhares sob o busto esbranquiçado na ausência do sol, só cá estou a me afogar no mar de memórias gélidas que me camuflam enquanto rodeado de estranhos que teimosamente tentam me decifrar, mesclar minhas aparências condicionando-me a um formato de humano reciclado composto e recheado de ausentes unicidades, mal sabem da verdade extensa que não cabe na palavra saudade, cá fico eu na vontade de rever-te e sentir outra vez as caricias que em outrora você me fez...

- Thiago Rafael.

Perpetua.

Lentamente vi sua mão já tocada pela velhice dirigir-se até a penteadeira de madeira antiga ainda envernizada, a ponta de seus dedos deslizando suavemente entre as linhas daquele objeto recheado de memórias, tantas quanto as que tomavam-na nas rodas de conversa no barzinho o qual aventurava seus últimos sopros de juventude, a tardia alegria era notória ao chegar a luz do dia, seus passos lentos forçados pelo desejo de descansar o pouco sustento ósseo que seu corpo contia, sentada no fim de tarde a margem de uma alheia calçada, degustando a tagarelice das vizinhas também tomadas pelo tempo, convites recusados para aniversários de mesma idade, a verdade é que queria sentir-se perpetuamente jovem mesmo nos seus últimos instantes, beijando um homem de meia idade momentos antes de seu coração bater asas, deixando com sua ausência muito mais que lembranças numa fotografia, a alegria no coração de quem ao seu lado gozada de sua incansável felicidade...

- Thiago Rafael.

Outras faces.

Eram poucos os segundos que restavam-me naquele fúnebre instante, as silabas cortantes de cada palavra por teus lábios lançadas de modo sussurrante, os negros olhos refletidos no espelho e a pouca luz a confundir-me os sentidos, gaguejante e inibido de arrependimento, por um momento vir-me objeto de sua estante de ilusões, um troféu recheado de negras memórias, as melodias que se formam no cair das lágrimas sob a mesa de madeira, a trêmula xícara de café a tanto já gelado, os rastros da maquiagem em sua face despindo todo o disfarce que durante anos acolheu a nós dois, podíamos seguir adiando este momento para depois, mas ambos os corações exaustos de tanto encarar-sem-se no espelho e forçadamente evitar o fim perpetuando aquela tristeza tão presente quanto outras emoções...

- Thiago Rafael.
"Os objetos inanimados que decoram meu lar são singelos fragmentos de mim materializados..." - Thiago Rafael

Apagar das luzes.

Do lado de cá ouço ao longe as batidas de um coração quase sem vida, o vasto lago de sangue que se expande a medida que os segundos passam, rastros que se apagam antes do alcançar do horizonte, vitima de um sentimento que não sabe-se vindo de onde, esvaindo a pouca vida que restara em um homem cujos momentos tiraram-lhe o sorriso, motivo o qual fazia-o seguir, agora sem ter onde ir vejo em minha frente este semblante falecido cuja expressão no rosto terá dito que morrera feliz por estar nos braços de um amor amigo.

- Thiago Rafael.

Funestos córregos.

Mastigando fragmentos singelos de um nobre sentimento, entre os intervalos de cada gotícula de chuva que caíra sussurrando melodias fúnebres nas escuras vielas de um telhado mal iluminado, festejos impróprios dominando o coração amargo, desleixado e inquieto, desejos incertos movem-lhe entre os cômodos vazios de seu corpo, deslizando as pontas de seus dedos sob a frieza dos moveis empoeirados, objetos esquecidos bem como as sensações que tomavam-lhe no passado, estranho gosto nostálgico quase perpetuo, eternizando o sofrimento de um homem mal amado...

- Thiago Rafael

Apenas mais um dia.

Podia eu dizer ao mundo quais sensações neste instante envolvem-me, mas nem todos os corações se comovem e eu outra vez certamente choraria, não pela ausência de alegria mas talvez pela dor que me consome, prematuro homem a caminhar entre interruptos compromissos, vejo-me a beira de um sedutor abismo a convidar-me a solidão, tendo o sono interrompido no meio da madrugada chuvosa, atordoado pela sifônia medonha que o balançar das telhas me trás, prazeres felinos sob o alcance do meu olhar, enquanto em algum lugar por amor o coração chora, eu por outro lado choro em busca de alguém para amar...

- Thiago Rafael

Sob duas rodas.

Dentro destes curtos centímetros que me cabem dividindo-me entre a vida e a morte, um instante mórbido e silencioso bem como o sussurro do sereno ao cair sob meus olhos manchados de lágrimas, estas estradas que me levam de um a outro lugar nenhum, cheias de curvas perigosas mas quase tão amorosas quanto as de uma mulher, alcançado pelo fim de tarde fico a merce de um disfarce dividido entre o amor e o prazer, movido pelo ronco e a gasolina ou pelo perfume de uma dama, similares sensações que me acolhem tanto na estrada quanto no calor de uma cama...

- Thiago Rafael