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Horas alcançadas.

Eram quase três da madrugada e no alto do céu cinzento os pingos ameaçavam trovejar, em seu birô ressecadas cascas de maçã decoravam a decadência de alguém entregue a sofrência, atenta a todos os detalhes ao seu redor fossem eles gigantescos ou o que houvesse de menor, ainda sentada em sua barata cadeira giratória já sem um dos apoios plásticos, equilibrou seus pensamentos sob o apoio restante e encarando sua estante observada atentamente os títulos de seus livros e os objetos que guardara memórias de cada passagem minuciosa de sua tão curta estadia em vidas que não mais pertencem-na, a lente embaçada de seu óculos ofuscava suas memórias mas deixou-se levar pela preguiça pois já havia sono em seus olhos, deitou-se deixando uma de suas pernas fora de seu leito permitindo-se sentir o suspiro gélido que o passar das horas lhe proporcionara, no alto do forro de gesso a frente de sua testa cheia de marcas de expressão havia uma constelação de estrelas luminosas quando entregues a escuridão, era uma de suas paixões deitar-se a margem das águas seja de qual fosse a forma e sua natureza, quando encarando o céu seu coração parecera uma fortaleza, rígido e impenetrável, protegido pelos laços que criara quando sozinha esteve diante das mais impensáveis necessidades, uma cruel verdade que nem todo alheio ouvido possui receptividade a sua história de vida, idas e vindas recheadas de perdas as quais nem mesmo as pedras do fundo de um precipício puderá imaginar, tendo entregue-se ao abismo de por tantas noites dar-se o luxo de em silêncio chorar, por não querer um colo amigo, por não ousar outro alguém incomodar, forçada pela vida a aprender que nesta estrada de mão única terá que ainda quando alcançada a idade desaprender a caminhar...

- Thiago Rafael

Neblina blindada.

Passadas as horas que me elevam corpo e pensamento, o momento mais mórbido de minha tristonha existência, negada pela vida minha única exigência, entreguei-me ao acaso, quase sempre embriagado vivendo a margem de uma decadente sobrevivência, quando sorria recordo-me ainda do gosto amargo da tristeza, hoje exilado neste império de solidão, a unica sensação que alcança meu corpo, é a frieza da madrugada ao tocar com os pés o gélido chão, na escuridão lá fora os pássaros da noite fazem a festa, enquanto encaram meu semblante moribundo, não haverá outro alguém neste mundo, mais tristonho que eu, nos últimos segundos não importei-me quem comigo ganhou ou perdeu, tudo que sei é que as emoções restantes, quando encarei nossa fotografia na estante, tudo em mim morreu...

- Thiago Rafael.

Exílio.

As vezes eu tenho a impressão de que já senti tudo que nesta vida eu poderia ter sentido, que eu devia sentir, sinto que a maior parte das sensações que me tomam são apenas emoções revividas e nenhuma delas seja inédita, penso se não viver algo novo seja o que eu realmente precise para encarar dias futuros ou se esse vazio que me toma tantas vezes no silêncio da madrugada, se este é um desejo incabível em mim de viver algo inexplicavelmente novo, algo que talvez ninguém em toda a existência da humanidade jamais tenha tido o prazer de vivê-lo, talvez seja por isso que me aventuro tantas vezes a despir-me em outros braços tendo em cada um destes um pedaço de mim deixado, certamente algum dia já não haverá nada mais de mim pertencendo a este corpo que carrego tantos fardos, chegará um dia que talvez eu me torne a pior parte de mim, a sombra daquilo que antes repudiava, não sei ao certo o que posso esperar mas quero ter somente a coragem de fazer um único pedido a quem por ventura de algum efeito desta vida acabe gostando do que restou, que este alguém tenha os devidos cuidados para que não toque em mim as tantas expostas feridas, não sei o que será de mim caso isso aconteça, não quero se quer pensar, mas enquanto me encaro no espelho vejo que é compreensivo a imagem que meu semblante carrega, perdi uma grandiosa parte de mim, talvez o que houvesse de melhor desdo instante em que me conheci, quando olhei-me pela primeira vez com outros olhos e me entreguei a alguém que sem duvida hoje ao menos se quer lembra-se do meu nome, do homem que eu era quando nos vimos pela primeira vez, eu por outro lado ainda recordo-me e até posso sentir os carinhos que me fez, as primeiras palavras ditas, a primeira lágrima de alegria, eu gostaria que algum dia tudo isso pudesse desaparecer, só assim quem sabe eu pudesse outras emoções descrever...

- Thiago Rafael.

Fragmentos noturnos.

Depois de ter o sono interrompido pelo desejo interrupto de meus pensamentos nestas palavras desabafar, vejo-me sem mais encontrar inspirações que me levem de encontro a algum lugar, um pensamento qualquer que por um instante se quer daqui me tire, pois os tantos metros quadrados deste quarto já são minúsculos diante da imensidão de sensações contidas em mim, penso se esta tormenta me acompanhará até meu fim ou se por ventura do destino eu tenha um outro caminho, mas creio que cedo ou tarde por ventura da verdade este seja um fardo que só cabe a mim carregar, esteja onde eu estiver para os pensamentos que me cerca não importa o lugar, logo estarei outra vez descrevendo o que alguém me fez ou onde eu gostaria de estar...

- Thiago Rafael.

Rimas superficiais.

Questionou-me porque sou tão fascinado pela escuridão, respondi-lhe que esta minha paixão é motivada pela razão de que quando se tem medo de algo, isto nos protege de algo pior, pois muitas vezes temer não necessariamente impõe aos outros que você não tenha coragem mas que na verdade você apenas está privando-se de outra vez sentir a dor, e porque não apaixonar-me pela escuridão se em outro alguém posso dar-me de cara com algo pior, tão frágil e aparentemente inocente, tido por tantos tolos como o mais prazeroso gosto no viver, dizem-me que quando um alguém especial eu conhecer, serei obrigado a me render ao que a poesia conhece como amor...

- Thiago Rafael