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Horas alcançadas.

Eram quase três da madrugada e no alto do céu cinzento os pingos ameaçavam trovejar, em seu birô ressecadas cascas de maçã decoravam a decadência de alguém entregue a sofrência, atenta a todos os detalhes ao seu redor fossem eles gigantescos ou o que houvesse de menor, ainda sentada em sua barata cadeira giratória já sem um dos apoios plásticos, equilibrou seus pensamentos sob o apoio restante e encarando sua estante observada atentamente os títulos de seus livros e os objetos que guardara memórias de cada passagem minuciosa de sua tão curta estadia em vidas que não mais pertencem-na, a lente embaçada de seu óculos ofuscava suas memórias mas deixou-se levar pela preguiça pois já havia sono em seus olhos, deitou-se deixando uma de suas pernas fora de seu leito permitindo-se sentir o suspiro gélido que o passar das horas lhe proporcionara, no alto do forro de gesso a frente de sua testa cheia de marcas de expressão havia uma constelação de estrelas luminosas quando entregues a escuridão, era uma de suas paixões deitar-se a margem das águas seja de qual fosse a forma e sua natureza, quando encarando o céu seu coração parecera uma fortaleza, rígido e impenetrável, protegido pelos laços que criara quando sozinha esteve diante das mais impensáveis necessidades, uma cruel verdade que nem todo alheio ouvido possui receptividade a sua história de vida, idas e vindas recheadas de perdas as quais nem mesmo as pedras do fundo de um precipício puderá imaginar, tendo entregue-se ao abismo de por tantas noites dar-se o luxo de em silêncio chorar, por não querer um colo amigo, por não ousar outro alguém incomodar, forçada pela vida a aprender que nesta estrada de mão única terá que ainda quando alcançada a idade desaprender a caminhar...

- Thiago Rafael

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