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Passageira.

Nem só de embriagues sobrevivem os rasos horizontes do teu olhar miúdo, teu rosto pequeno quase tão curto quanto teu sorriso, espremido no esboço de felicidade que rabiscas ao deparar-te com um qualquer a chamar-lhe carinhosamente, as confusões que afrontam tua mente fazendo-lhe cansada ficar, escondem-se perfeitamente por trás da simplicidade do teu lento caminhar, o desejar mais que profundo, migrar para outro mundo, sem vestígios de saudade levar...

- Thiago Rafael

Teu ninho.

Em teus olhos vejo o gosto da arte, disfarce para tantas tristezas que afrontam teu sorriso, motivo o qual em noites chuvosas quando desejara o paraíso, tens teu bocejo interrompido pelo trovejar, mesmo saboreando o gostinho do frio, acorda-te no meio da noite o relampear, teu cobertor torna-se pequeno pois expõe teus pés, cobrir o céu dos teus cabelos, deixando molhar o solo enrugado de teus dedos, tocando uns aos outros desejando não ficar sozinhos, enche-se de lagrimas teus olhos ao encarar com sensibilidade o teu ninho, tristonho aparente, que cabe tanta gente, mas tornou-se com as feridas ser apenas o teu mundinho, mudo e pequenino, ninho de um passarinho só...

- Thiago Rafael

Deves partir.

De longe trás o vento mentiras que mal cabem-me no peito, afronta-me este teu jeito teimoso de envolver-se no meu leito como se teu fosse, ofuscar com tuas maldades o deleite da minha alegria, falsa identidade de quem diz-se por tantas vezes embriagar-se de amor, mas ilude-se quem com a cor dos teus olhos desacredita que provar de ti só vos trará a dor, bem fazes um favor ao partir pois seja lá onde tenhas de ir que parta o quanto antes, minha estante de sorrisos precisa ser renovada e meu peito tornar-se abrigo de uma outra namorada...

- Thiago Rafael

De malas prontas.

Vejo-me enrugado, espremido como objeto já não usado, em meio aos empoeirados que compõe o teu asilo de memórias, idosas passagens de tua vida que outrora a motivara, hoje tristonha encarando o bater das águas num fim de tarde, buscando no silêncio interrompido pelo sopro do vento, encontrar neste momento alguma verdade que traga-lhe algum sentido, sem egoismo, sem desejar o paraíso, querendo apenas um alguém para servir de abrigo, um ombro amigo para deixar de chorar sozinha, migrar de lar pois já não aguenta viver ao lado da solidão, esta insuportável vizinha...

- Thiago Rafael

O partir das rosas.

O que te aflige já não mais me cabe, bem sabes que a verdade não me fere, não sou de ferro mas meu coração de aço não enferruja, não enruga a pele, não recolhe a tristonha face que vestes, mal cabe a mim a ilusão maldosa que por causa tua mandei embora a felicidade, embora nem mesmo a idade que já me persegue, seja esta capaz de deprimir-me bem como diariamente o mal que teu ilusório sorriso me trás, o único bem que me faz é contar os dias que ao degustar como caviar em mesa de pobre e o nobre a se lambuzar na sua privacidade, cá fico entre as quatro paredes que me cercam preso como peixe na rede prestes a compor o cardápio de um botequim qualquer, serei eu só mais um espaço ocupado num terreno cercado de tantos outros que disseram adeus ao mundo que não os coube, tão deprimente fim este meu, mas enfim serei eu algum dia alguém cujas lagrimas dirão bem mais que sorrisos e mesmo num semblante aflito caberei tão justamente quanto o sentido da palavra amor ao que dediquei-me com tanto ardor todos estes anos cultivando flores para aqueles que partem e aos apaixonados que em outrora igualmente iram chorar por não mais ter alguém ao seu lado...

- Thiago Rafael

Tesouro.

Trago pra ti meus lemes e minha canoa, a minha saudade que de tão boa no mar irá te confortar, o meu sorriso que de tão caloroso te roubará o frio, meu olhar sincero para te dar a vontade de voltar pra casa, mas não partires com pressa, vai devagar com esta jangada, só não joga o que é teu no meio do oceano, pois eu terei de ir buscar o pedaço de mim mais precioso, teu coração no fundo do mar, o meu maior tesouro.

- Thiago Rafael.

Marinheira.

Marítimo sorriso no luar profundo, vagante no meio do mar, a imensidão do oceano não mede, o tanto que tenho pra te falar, contar sobre os vestígios frágeis que possam surgir no meu olhar, brotar quem sabe palavras em meio ao silêncio de meus lábios, molhar os olhos alheios de quem insista encarar, este semblante teimoso de quem por muitas luas insiste em te amar...

- Thiago Rafael.

Linhas de outrora.

Sem que eu pudesse pensar nos segundos próximos que não pude ver chegar, o alcançar da luminosidade do luar num fim de tarde onde a vermelhidão do céu anuncia o partir do sol, sozinho desnorteado entre as linhas de um caderno de páginas já amareladas e tantas já rasgadas frutos de rabiscos que se foram junto as pessoas que por aquelas linhas cheias de sangue e lagrimas passaram, deixando em mim marcas de um passado cujas memórias ferem-me igualmente bem como em outrora futura fizera outro alguém chorar...

- Thiago Rafael