Lentamente vi sua mão já tocada pela velhice dirigir-se até a penteadeira de madeira antiga ainda envernizada, a ponta de seus dedos deslizando suavemente entre as linhas daquele objeto recheado de memórias, tantas quanto as que tomavam-na nas rodas de conversa no barzinho o qual aventurava seus últimos sopros de juventude, a tardia alegria era notória ao chegar a luz do dia, seus passos lentos forçados pelo desejo de descansar o pouco sustento ósseo que seu corpo contia, sentada no fim de tarde a margem de uma alheia calçada, degustando a tagarelice das vizinhas também tomadas pelo tempo, convites recusados para aniversários de mesma idade, a verdade é que queria sentir-se perpetuamente jovem mesmo nos seus últimos instantes, beijando um homem de meia idade momentos antes de seu coração bater asas, deixando com sua ausência muito mais que lembranças numa fotografia, a alegria no coração de quem ao seu lado gozada de sua incansável felicidade...
- Thiago Rafael.
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Outras faces.
Eram poucos os segundos que restavam-me naquele fúnebre instante, as silabas cortantes de cada palavra por teus lábios lançadas de modo sussurrante, os negros olhos refletidos no espelho e a pouca luz a confundir-me os sentidos, gaguejante e inibido de arrependimento, por um momento vir-me objeto de sua estante de ilusões, um troféu recheado de negras memórias, as melodias que se formam no cair das lágrimas sob a mesa de madeira, a trêmula xícara de café a tanto já gelado, os rastros da maquiagem em sua face despindo todo o disfarce que durante anos acolheu a nós dois, podíamos seguir adiando este momento para depois, mas ambos os corações exaustos de tanto encarar-sem-se no espelho e forçadamente evitar o fim perpetuando aquela tristeza tão presente quanto outras emoções...
- Thiago Rafael.
- Thiago Rafael.
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