Visitantes
Bestial.
Não lembro-me de como eram as nuvens enquanto jovem, ausentava-me do leito apenas ao anoitecer quando minhas deformidades esgueiravam-se nas sombras, quando o mundo saboreava a frieza dos odores mais moribundos, os becos sujos cheios de musgo e vomito exalavam o forte cheiro da ausência de vida naquele lugar, eu ainda jovem caminhando entre bêbados falidos e prostitutas tuberculosas tive os pés calejados pelas velhas botas manchadas de sangue e lama. Passados os anos acostumei-me com este estranho hábito noturno de perambular entre as vielas e becos daquela cidade amaldiçoada esquecida pelos deuses e vir-me por tantas vezes desacreditado do viver, olhava-me no espelho trincado por anteriores fúrias e via-me através dos trincos a pura imagem do demônio em pele e corpo de menino, conforme o tempo passava via-me cada vez mais distante de minha natureza humana aproximando-me intensamente e ligeiramente da besta que nas profundidades de meu ser fazia morada em absoluto repouso, certa tarde quando já passada a adolescência próximo a minha idade adulta ao acordar mais cedo que de costume atrevi-me a abrir a janela do telhado onde escondia-me do mundo, ao lado residia uma moça jovem cujo ando pudera ser ouvido todas as manhãs, lembro-me ainda em sono ser alcançado pela suave voz daquela pequenina moça com pouco mais de um metro e cinquenta, cachos caramelados e uma pele de manteiga que reluzia sempre que o sol batia, observando-a sempre através das brechas das madeiras jamais havia tido-a por inteira ao alcance dos olhos mas tudo mudou naquela manhã, assustada encarou-lhe no mais profundo abismo dos meus olhos e depois de um instante reflexivo entre a vida e a morte em sua mais tristonha e deprimente representação humana ela sorriu, sem encontrar palavras para retribuir-lhe a gentileza acenei-lhe com um singelo gesto movendo minha cabeça para cima e para baixo em ato de aprovação, como se nada tivesse visto retornou as suas ocupações e desfez-se o encanto do momento, recolhi-me nas sombras do telhado deixando-me exposto aos traços de luz que adentravam meu mundo pelas biqueiras. Ao cair da noite ainda com o céu avermelhado pelos últimos traços de sol, apressei o passo em direção a casa vizinha na esperança de através das cortinas espiar a intimidade daquela jovem moça que horas atrás havia tirado-me o folego e a ausência de trevas em meu coração, dando-me nova vida a cada batimento acelerado vir-me renovado e por fim a procurei. Saindo do quintal rumo a cozinha, arrastava os passos entre os cômodos da casa causando-me o incomodo por não tê-la ao alcance dos olhos, o intimo já enrijecido e pulsante, uivante desejar que enfurecia-me a ponto de cravar as curtas unhas sob a pálida pele de minhas frágeis coxas, enfim vejo-a expor-me o braço soltando seus trajes na sala enquanto ainda no quarto despia-se sem apresentar-me o corpo em sua forma natural, instantes curtos separando-nos intimo e eu de suas curvas carentes de um malicioso olhar, por fim o corpo ainda molhado caminha entre os móveis da sala desviando-se do sofá rumo a vitrola onde uma bela musica pós a tocar, sem perceber que observando-a tocava-me as costas de suas cortinas dançava e sem imaginar que esperava-me pus-me ali a ficar, então como se coreografia fosse aproximou-se da janela e sem que percebesse que estava aberta abordou-me com um saudoso olhar enquanto os seios expostos encaravam-me o intimo e sem que pudesse notar veio-me o gozo e o rosto da jovem ousou-se alcançar, ela por sua vez novamente sorriu e disse-me, "entre, estava a lhe esperar.", o corpo feito lebre saltitante ergueu-se e mudo mudei-me a postura, adentrei pela porta de trás como intruso fosse e suavemente dei os primeiros passos, ela por sua vez veio de encontro a mim desta vez vestida de cetim, pegou-me pela mão e levou-me até o sofá, colocou uma perna de cada lado de minhas coxas e sentindo suas canelas dividindo o curto espaço comigo olhei-lhe do umbigo ao busto, não enxerguei coragem para encarar-lhe nos olhos e ao notar minha timidez graciosamente levou suas palmas ao meu queixo e erguendo-me a face desfez-se do disfarce de boa moça, assustou-se com as deformidades mas não ousou dali sair, ainda sentada em meu colo, tremula e assustada encarou-me uma segunda vez e desta com mais ternura perguntou-me o que havia acontecido com tal pobre criatura, com igual gentileza respondi-lhe que por fúria da natureza na morte de minha mãe vim-me ao mundo com este infame semblante e por vez sobrevivi esgueirante entre as sombras da noite, olhando-me nos olhos beijou-me a testa e mesmo sem externa reação em meu interior todo o corpo estava em festa. Outro dia, novos toques observando-a pelas brechas da janela, a coragem que me resta leva-me somente a observa-la, não vejo-me diante da atitude de ir de encontro outra vez ao seu sofá, tê-la no colo e desta vez beijar, no entanto o mundo por mais cruel que seja ensina-nos que também há beleza mesmo por trás das lágrimas que ocultam-se na face quando a chuva cai, ela de sua sala disse-me, "entre rapaz", outra vez sem muito pensar atrevi-me pela porta de trás adentrar e desta vez sem sensatez fiz barulho no caminhar, ela por sua vez ainda despida veio de encontro a mim e sem que eu pudesse dizer olá seu corpo já estava no meu e meu intimo por sua vez o da gentil moça adentrar, levei-a até o sofá e encarando-lhe nos olhos a sentia umedecendo minhas coxas, as costas sob a napa suava-lhe a pele ligeiramente criando tamanha fixação que a fazia-lhe imóvel naquele lugar, bombeando meu intimo indo e vindo por incontáveis vezes, levando-o a boca, sentindo seus dentes amarelados deslizando sob a pele rosada, retornando ao intimo, vindo e vindo desta vez mais umedecido, mais rígido e ela aos poucos gritava, as unhas penetravam-me a pele, arranhando-me ferozmente como se besta fosse, seus olhos encaravam-me famintos e com gritos insanos dizia-me, "foda-me mais forte, mais forte, mais forte...", alucinado e regido pela sinfonia que nossos corpos emitiam vir-me eloquente e levei-me as duas mãos ao seu pescoço, sufocando-a cada vez mais, ela por sua vez incapaz de algo dizer, vi aos poucos seu corpo falecer colado no meu e a inocência de seu olhar se perder quando o gozo alcançou-me e sentido a frieza de sua pele dei por mim que se quer sabia seu nome...
- Thiago Rafael
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário